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Férias na Fazenda

 

 

 

Minhas férias na fazenda eram parte de minhas efemérides anuais.

 

Como o natal, a páscoa e o carnaval.

 

Ao fazer as últimas provas, parecia-me já sentir o cheiro de mato me chamando.

 

O ônibus rodando, a paisagem familiar voltando mais uma vez.

 

Na estação, meu tio, minha tia e minhas duas primas.

 

Meu tio de bigodes, botas e fala mansa, dedos e dentes enegrecidos pelo cigarro de fumo picado.

 

Minha tia, o rosto quadrado, os óculos quadrados, o riso franco nem ligando para o dente que faltava.

 

E minhas primas, Kátia e Tânia.

 

Kátia de 14, Tânia de 16.

 

Esperavam-me com o rosto afogueado; para elas aquele também era um momento mágico.

 

A vinda do primo anunciava férias e novidades.

 

No caminho para a fazenda, eu sentia a alma relaxar, as tensões acumuladas a se esvanecerem.

 

Mas para minhas primas, a excitação subia.

 

Chegando à fazenda, tinha já despido a cidade e vestido o campo.

 

Ao menos na alma; no corpo eu era meio sem jeito.

 

Devia fazer como minhas primas: a camiseta, o velho short e os pés no chão.

 

A camiseta já vira muita água e sol, o short jeans esgarçado um dia já fora calça comprida.

 

E mais uns brinquinhos, umas pulserinhas e uma argola no tornozelo.

 

Este era o uniforme de campo de minhas primas.

 

E elas tinham o rosto, os braços e as pernas eternamente bronzeados pelo sol da montanha.

 

Minha tia brigava, elas pisando descalças traziam terra para dentro de casa.

 

Mas elas não abriam mão dos pés no chão, símbolo da liberdade.

 

Minha tia usava havaianas. E eu, bôbo, não conseguia botar os pés no chão, doía.

 

Mas a relva acariciava os pézinhos das minhas primas.

 

Pela cor da sola, dava para saber por onde estiveram andando.

 

Cinzento, no soalho de madeira antigo da casa.

 

Amarelo, no terreiro até o galinheiro.

 

Escuro, pelos lados do curral.

 

Ou brancos e molhados, quando minha tia as mandava lavar o chão do banheiro.

 

Êta, ladrilho velho de cerâmica, duro de limpar!

 

Mas quando iam à escola, punham tênis kichute.

 

E calça comprida, e a caneta bic enfiada na fivela do cinto.

 

Assim era o uniforme de cidade das minhas primas.

 

Mas a vida seguia seu ritmo próprio nas férias.

 

Dormir bem e acordar cedo, sem sono nenhum.

 

O café "gordo", como minha tia dizia, que alimentava para valer.

 

E depois os passeios, os banhos de cachoeira, as conversas.

 

E às vezes, festas na cidade. Minhas primas adoravam.

 

Pediam para meus tios deixá-las ir. Eles deixavam, contanto que eu fosse junto para tomar conta.

 

Eu, tomar conta? Eu ia é paquerar, também.

 

 

A muvuca, a música ao vivo, a cerveja farta. Elas iam para os braços de seus namoradinhos.

 

Caras de menino, mas vestidos como homens, eles me cumprimentavam com todo o respeito, eu era importante.

 

Uns eram para apresentar aos pais, outros eram para namorar escondido. Eu percebia pelo olhar delas.

 

E as minhas paqueras? Também eram tímidas, mas com a cerveja elas se soltavam.

 

Só as perguntas continuavam bôbas.

 

Perguntavam se era verdade que lá no Rio toda hora se cruza com artista famoso, vê de pode.

 

Bom, uma vez eu cruzei com uma atriz de novela no shopping.

 

Mas a vida no campo é diferente; nada é espectral, tudo tem consistência.

 

Comida é comida, trabalho é trabalho, namorado é namorado, família é família.

 

Os mistérios ficam irrevelados, a vida tem emoção e suspense.

 

As pessoas se preocupam uma com as outras. Meus tios se preocupavam com minhas primas.

 

Tinham que saber aonde iriam, com quem estariam, a que horas voltariam.

 

Os espaços são amplos, mas as portas das casas são estreitas.

 

Na saída, o ritual: as recomendações, o beijo no pai, o beijo na mãe.

 

Na volta, elas sabiam que os pais as estavam aguardando.

 

Engraçado, elas eram tão despojadas, mas tratavam os pais de senhor e senhora.

 

Respeito é bom e eu gosto, conselho é para ser seguido, e as faltas não ficam impunes.

 

Sim! Havia castigo e surra!

 

Isto enchia de percalços a vida das minhas primas.

 

Fazia seus coraçõezinhos dispararem e suas bocas ficarem secas. Eu, com pena, procurava confortá-las.

 

Mas que elas aprontavam, aprontavam.

 

A surra era tão parte do dia-a-dia quanto o jeans desbotado e a cadeira de balanço da sala.

 

Chamavam-na tunda, coça, pisa, couro, sova.

 

E o castigo? Ah, era solenemente anunciado e vinha acompanhado de sermão: uma semana sem sair de casa!

 

E ela tinha que fazer todos os trabalhos. O Henrique vigiava.

 

Henrique era o irmão mais novo, de oito anos, sardento e levado.

 

Ou então ficava de cara para a parede. A gente vendo televisão, e ela de costas.

 

Ou se era de dia, em pé no pátio de trás. Ela reclamava que o chão de cimento estava pelando, minha tia perguntava se ela preferia ficar de joelho no milho.

 

Elas me contavam que já tinham ficado de joelho no milho, aquele milho das galinhas.

 

Falou palavrão? Pimenta na língua! Aquela pimenta curtida, no vidro de maionese aproveitado.

 

Um segurava-lhe os braços, outro metia-lhe a colher de pimenta na boca.

 

Contavam também de um tal de ôvo quente, mas este eu não sei como é.

 

A surra rondava como uma sombra na paisagem ingênua.

 

Elas falavam sobre a surra; rindo dela, se era uma surra do passado; angustiadas, se era surra nova aguardando-as.

 

Eram episódios épicos em suas vidinhas de garôtas de fazenda; elas narravam em tom de epopéia.

 

A estrepolia, a descoberta e o corretivo.

 

A platéia ouvia deliciada, mas sempre alguém tinha outra tunda pior para contar.

 

Mas quando era tunda nova a caminho, quanta aflição!

 

O medo, o suspense. Alguém contou? A desculpa ia colar? Ai, meu Deus, o que vou fazer?

 

Mas por vezes chegava sem aviso, algumas eram anunciadas, outras repentinas.

 

Minha tia usava sandália havaiana; tal como a pistola no coldre, estava sempre à mão.

 

(Ou aos pés, seria o caso de dizer).

 

Ela tirava a sandália, e vinha chegando devagarzinho.

 

Até que, SLEPT! Cantava no bumbum da menina.

 

O susto, a mãe zangada, a menina com as mãos atrás protegendo o traseiro.

 

Tinha também goiabeiras, que davam boas varas.

 

Minha tia cortava, e vinha se aproximando de mansinho.

 

Até que, ZÁS! O bote, e ela segurava a presa pelos cabelos.

 

A vara zunia no ar, e ia beijar as coxas nuas da menina.

 

Ela pulava, pulava, pulava, pulava, parecia que o chão do terreiro estava em brasas.

 

O ar se enchia de gritos, AI, TÁ BOM, PÁRA, POR FAVOR, TÁ BOM, TÁ BOM, TÁ BOM.

 

Mas parar? Mal começou.

 

(Vara de goiabeira é assim, vai e volta, não quebra, explicava minha tia).

 

O irmão mais novo ria, divertido, e gritava incentivos.

 

A outra irmã ria, também, só eu ficava sério.

 

E a vara zunia, zunia, zunia, zunia.

 

E a menina pulava, pulava, pulava, pulava.

 

Mas tunda boa não era de qualquer jeito, não.

 

Tal como o réu no tribunal, ia a menina para a sala da frente.

 

Às vezes Kátia, às vezes Tânia, às vezes as duas.

 

O sofá de palhinha era a cadeira do juiz.

 

Quem batia? Ora, às vezes meu tio, às vezes minha tia, tanto fazia.

 

Um batia, e o outro olhava, severo.

 

Se eram chamadas a comparecer à sala, Kátia e Tânia sabiam que estavam encrencadas.

 

Ela vinham rapidinho, os pés descalços mal roçando as tábuas do soalho.

 

E falando depressa, a voz se tornava fina, e os argumentos desencontrados.

 

Mãozinhas se torcendo, súplicas, promessas.

 

Meus tios não tinham raiva, mas pesar.

 

Dedo em riste, explicavam às filhas que haviam agido errado, e que o corretivo era justo.

 

A uma ordem de meu tio, Henrique, o irmão mais novo, ia buscar a correia.

 

Era sempre a mesma: couro cru, antiga e gasta; era humilde e trabalhadora como todos naquela casa.

 

Tinha estalado no lombo de muito cavalo; agora, aposentada, estalava no bumbum tenro das meninas.

 

Chegada a correia, é hora de apresentar as nádegas.

 

O medo e o pudor atacam juntos: a menina faz beicinho, a voz treme, as lágrimas afloram.

 

Implora como uma menininha. A voz de minha tia fica mais gentil, mas não menos firme.

 

Minha filha, desabotoa o short.

 

O pai e o irmão presentes? É tudo da família.

 

O primo presente? Também sou da família.

 

Quem é da família pode ver tudo, quem não é da família não pode ver nada.

 

A mão trêmula tira da casa o botão metálico.

 

O velho short desce pelas coxas bem torneadas, e surge a calcinha de nylon.

 

A calcinha segue o short, e as nádegas surgem redondas e brancas.

 

O triângulo da marca do biquini assinala aonde o sol da montanha não alcança.

 

O short nos joelhos, a menina se curva e procura o colo.

 

O colo é aconchegante, é lá que elas procuram conforto quando a vida as faz sofrer.

 

O colo é proteção, amor, segurança; mesmo o castigo é para o bem delas.

 

E curvando-se, a menina exibe a visão fugaz da região pubiana.

 

E colocando-se na horizontal, mostra a sola dos pés. Pela cor, dá para saber por onde esteve andando.

 

(Cinzento, no soalho de madeira da casa.

Amarelo, no terreiro até o galinheiro.

Escuro, pelos lados do curral).

 

O garoto Henrique olha, atento, a irmã que vai apanhar.

 

Ele apanha de chineladas e varadas a esmo, mas surra de gente grande tem mais pompa e circunstância.

 

E do retrato na parede,  também os bisavós parecem mirar, circunspectos, aquela bunda branca.

 

Se é Kátia que apanha, Tânia olha e ri.

 

Se é Tânia que apanha, Kátia olha e ri.

 

Se são as duas, primeiro vai Tânia, a mais velha, e depois Kátia, a mais nova.

 

E o couro estala nas nádegas nuas.

 

LÉPT! LÉPT! LÉPT! LÉPT!

 

Beija uma banda, depois a outra, desce pelas coxas.

 

A menina se debate como um peixe fora d'água.

 

Os pés sobem e descem, ela vira a bunda para um lado, depois outro.

 

LÉPT! LÉPT! LÉPT! LÉPT!

 

Os pés batem cada vez mais rápido.

 

E as palavras formam uma torrente.

 

Gritos, apelos, promessas incoerentes.

 

E a correia responde: LÉPT!

 

(A vida no campo é diferente; nada é espectral, tudo tem consistência.

E a correia também tem consistência).

 

Segura pelas costas, a menina não pode escapar.

 

A correia é deusa irada, exige oferendas.

 

E o corpo submetido lhe dá o que tem.

 

Gritos, lágrimas, suor, urina.

 

Até que a correia esteja saciada.

 

Então corre a menina para o quarto.

 

Joga-se na cama, e inunda de lágrimas o travesseiro.

 

Eu me aproximo daquele corpinho ofegante.

 

Minha mão lhe afaga os cabelos, sente o molhado das lágrimas.

 

A irmã também está a seu lado, confortando-a.

 

(Ou, quem sabe, chorando na outra cama).

 

Vem minha tia, ainda zangada, mas não mais castigadora.

 

Traz nas mãos a esponja e a bacia com água e vinagre.

 

Mais uma vez, o short desce pelas pernas.

 

Revelando a carne fôfa e marcada após o colóquio com a correia.

 

Vergões rubros no branco das nádegas, marcas escuras no bronzeado das coxas.

 

Parece uma bandeira com listras. De que país é essa bandeira, gente?

 

Ora, é a bandeira da casa dos meus tios.

 

Minha tia passa a esponja, zangando com a filha.

 

Mas sua mão é suave! E a ameaça do banho de salmoura nunca é cumprida.

 

Da porta, meu tio olha, sério.

 

A menina chora, chora, chora, chora.

 

Na fazenda o riso é franco, e o chôro também é franco.

 

Mas não há ressentimentos, apenas um bumbum dolorido e lágrimas salgadas.

 

A água com vinagre alivia o calor dos vergões.

 

Com uma toalha e muito carinho, minha tia seca o bumbum de sua menina.

 

E passa-lhe talco; ela já parou de chorar.

 

Sem calcinha, a menina põe um vestidão largo.

 

E, dengosa, passa o resto do dia pelos cantos.

 

Mas eu lhe dou carinho e atenção, digo-lhe coisas engraçadas.

 

Os olhos ainda estão vermelhos, mas ela acaba sorrindo.

 

O irmão menor, curioso, quer ver como ficou a bunda.

 

É repelido: espertinho, hein?

 

No dia seguinte, a vida recomeça.

 

Livres e arteiras, minhas primas correm pela relva.

 

Mas tudo tem um fim; é hora de partir.

 

Findas as férias, meus tios me levam até a estação.

 

Minhas primas acenam; o ônibus parte.

 

A paisagem corre na janela, meu corpo está vazio e renovado.

 

E penso na cidade, para onde estou voltando.

 

Lá as meninas não andam de pés no chão, mas usam meias de seda.

 

E não apanham no bumbum.

 

 

by Voltaire